Melhores da Década


Entrar no clima de Alta Fidelidade e sair fazendo listas é sempre tentador, como a década terminou e a grande onda é dizer o que foi bom e o que foi ruim nesses dez anos que findaram vamos lá. Não vou perder meu tempo com o que não presta, gastar as poucas linhas pra falar do que não vale à pena é burrice. Então indo direto ao que interessa: A música paraense viveu nos anos 00 uma efervescência um tanto incomum. Muitas bandas novas surgiram, um discreto apoio da mídia e festas rolando com freqüência. Finalmente o reinado dos covers perdia seu espaço e o autoral passava a ditar a onda. Em uma década tão produtiva ficava difícil escolher dez músicas que fossem as mais marcantes do período, muita coisa boa fica de fora nessa hora, mas o que se segue é uma tentativa de sintetizar ao máximo o que foi a produção pop e rock da cidade.

Cravo Carbono – Marx Marex
Marx Marex marca o inicio da mistura e valorização do regional feita pelo Cravo Carbono. Oriundos dos anos 90, época em que o punk e o hardcore ainda dominavam a cena musical independente e autoral, o Cravo Carbono trouxe músicos experientes com letras que transitavam pela poesia concreta e um toque de experimentalismo. Com o lançamento do primeiro single em 2001 o Cravo Carbono dá indícios de que algo estava pra ocorrer nos anos que se seguiam. Marx Marex sempre que é tocada diverte com seu refrão pra lá de grudento, as festas no “antigo” Eexpresso da Meia Noite na Marambaia que o digam.

Delinquentes – Planeta dos Macacos
Falar do Delinquentes sem chover no molhado é algo complicado. A banda tem uma história pública e notória de participação e trabalho dentro da cena rock, punk/HC de Belém. Planeta dos Macacos também não é uma música nova, mas como a Banda só lançou seu primeiro disco no começo da década então pode ser considerada como parte do processo. Pra quem nunca teve o privilégio de ver um show do Delinquentes não sabe o quanto essa música transpira energia, as pessoas cantam e dançam com uma pilha incomum, alguns pogoam, outros batem cabeça, outros fazem o famoso chifrinho com os dois dedos erguidos, mas todos na sua vibe se divertem. Isso pra uma banda que não toca na rádio, não tem seu disco vendido nas grandes lojas, é independente e com mais de vinte anos de estrada ter essa resposta do público só prova que os caminhos traçados não foram os errados.

Eletrola – Revel
A Eletrola foi a banda mais promissora de Belém que não deu certo, infelicidades e atropelos fizeram uma ótima banda acabar antes do tempo. Por sorte outras duas bandas saíram da dissociação dos integrantes. Sorte de quem os viu ao vivo e em boa forma. Revel é uma canção daquelas que a gente ouve e se emociona. Riffs grudentos numa linha Weezer de se fazer um Power pop de qualidade. A banda protagonizou um dos shows mais legais que vi nesta terra úmida, na casa dos artistas abrindo pro Autoramas. Naquela ocasião a simpática baterista num ato de singeleza pura estourou a borboleta do prato (ou do chimbal, não tenho certeza). Quer coisa mais rock’n roll?

A Euterpia – Veneza
A Euterpia é mais uma banda que se findou recentemente, mas ao contrário do Eletrola, por opção e sem brigas. A Euterpia pela sonoridade pra lá de arrojada, com todo o esperimentalismo que a MPB e o pop oferecem foi uma das bandas mais singulares e fortes do período. Veneza tocou nas rádios e mostrava a qualidade dos músicos e quão consistente poderia ser suas canções. A letra, segundo a vocalista Marisa, escrita em uma tarde na Praça Batista Campos para o belo dia que os integrantes da banda viviam. Os shows da banda eram perfeitos tanto por conta da qualidade e carisma dos músicos quanto pela interação do público. A Euterpia é mais uma banda que vai deixar saudades.

Johny Rockstar – Alcalina
Johny RockStar tem em sua formação o ex-baixista do Suzana Flag Elder Effe, e o baterista Ivan Vanzar do Madame Saatan e os irmãos Eliezer e Natanael da extinta Eletrola, pode ser considerado um super grupo do rock paraense. A qualidade e a experiência do grupo que conta com pessoas responsáveis diretos pela renovação do pop e do rock feito na cidade, além do carisma de todos na hora dos shows são as marcas desta banda. Alcalina é um pop rock animado com uma letra feita nos moldes das canções que ficam na memória pra sempre. Como todo super grupo depende do tempo que os integrantes têm em suas outras bandas. Mas o certo é que quando se reúnem a festa vai ser boa.

La Pupunha – São Domingos do Surf
La Pupunha foi a conseqüência deixada pelo Cravo Carbono, e pela pesquisa em cima da guitarrada feita por Pio Lobato. Uma banda que agrada o publico, principalmente o universitário, que em virtude do reconhecimento e do retorno dos sons mais regionais como a guitarrada e os sons mais caribenhos exigiam uma banda que tivesse essa levada. São Domingos do Surf não é apenas uma música boa, ela experimenta com o merengue, a guitarada e o rock e mostra toda a versatilidade do grupo. Sempre que toca o quem está nos shows arruma um parceiro(a) e sai rebolando pra tudo que é lado. O Instrumental paraense que atinge não apenas a elite com o Jazz mais denso e cabeçudo, mas também as camadas mais populares com uma qualidade inegável. La pupunha é um dos responsáveis por essa aproximação.

Norman Bates – Um Pouco Mais de Mim Mesmo
Norman Bates é uma daquelas bandas difíceis de ser ao vivo. Não foram muitas as vezes que pude ter esse privilégio. Não sei o que acontece que o grupo demora tanto pra se apresentar, mas é indiscutível sua força dentro da cena rock de Belém. “Um Pouco Mais de Mim” Mesmo figura entre os clássicos da década não apenas pela força sonora da canção, mas por ter sido imortalizada na apresentação da banda no “Bandas Novas” da MTV. A efervescência com a idéia de boom do rock paraense na época era tanta e a ida do Norman Bates para se apresentar em um programa de rede nacional foi uma pilha só. Ficou marcado por ser um dos acontecimentos da já badalada nacionalmente “cena do Pará”.

Madame Saatan – Messalina Blues
A força e o vigor desta banda são inigualáveis. O Carisma de seus integrantes é algo contagiante. No palco são uma apoteose de um caos que impressiona pela qualidade musical e das letras. Tem horas parece ter saído de uma boa história em quadrinho. A banda mais bem sucedida da safra dos anos 00 e hoje já trilha um caminho pelo independente com êxito e talvez ainda não tenha alcançado a grande mídia por incompetência dos sangue sugas que a fazem. Messalina Blues é um hard/heavy poderoso que fala de algo que é mais do que pertencente ao mundo do rock, boemia, decadência, um glamour extraído e vivido onde ele não existe. Madame Saatan está onde está com todos os méritos que merece. Resumidamente é uma banda foda.

Stereoscope – Felicidade Azul
Uma banda com dois pés nos anos 60. Assim como o Norman Bates foram poucas as vezes que os assisti ao vivo. É uma banda que também tem um certo respaldo fora do estado, tendo a gravadora Senhor F discos como a grande distribuidora de sua obra. “Felicidade Azul” é uma canção pop que impressiona pela simplicidade tanto de letra quanto de música e que expõe perfeitamente o que é o Stereoscope. Foi uma canção que tocou bastante nas rádios e representou bem um instante significativo na história do rock/pop paraense. A banda prepara o lançamento do novo disco, previsto para o começo de 2010. A certeza de canções e letras que possam ser apreciadas tanto numa tarde chuvosa quanto em uma viagem a praia é indubitável.

Suzana Flag – Perdas e Danos
Suzana Flag foi uma banda que fez muito barulho quando surgiu, eram sempre ovacionados como “a banda de Castanhal”. Uma banda que também vinha com uma simplicidade pop anos oitenta e com canções muito carismáticas. “Perdas e Danos” embalou os shows da banda pela década que se passou com uma energia fora do comum. Uma letra romântica, um instrumental pegajoso no melhor sentido que essa palavra possa ter. A banda que já se apresentou no famigerado festival Abril Pro Rock e participou do tributo em homenagem a Odair José passou por reformulações e já prepara para se lançar novamente na noite belenense. Pra alegria de todos.


Menção Honrosa

Ruwa – Ratos no Tucupí
Escolher uma turma do Hardcore para por entre as musicas mais marcantes de uma década é complicado. O gênero é marginalizado pelas rádios e você só os ouve se gostar do estilo, comprar o cd e ir nos shows. O que faz o Ruwa com seu agressivo “Ratos no Tucupi” ser tão importante? Um fato simples. A banda foi a primeira vencedora do festival de música do CCAA. Até ai tudo bem, o que marcou foi a forma como se deu esta vitoria. O Vocalista foi comemorar o prêmio jogando um saco de lixo pra cima e acabou sendo expulso praticamente na base da porrada pelos seguranças, quem estava lá e viu a cena pediu pro segurança liberar o cara que ele tinha ganhado o prêmio. O que não adiantou. Marcou pela atitude e pelo ocorrido. É uma pequena pérola da cena hardcore/punk de Belém.

Márcio Cruz
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